Sofá azul


Uma hora da manhã e eu me sentei no sofá azul que me acompanhou durante a maior parte da minha vida. Em geral, costumo me lembrar de quando sentava ali para chorar as saudades que sentia da mamãe quando ela teve que ir para longe, e mais ainda... as tristezas por não saber ao certo o que estava acontecendo com o vovô. Sentar neste sofá, era como estar na beira de um precipício, tanto antigamente quanto no meu dia-a-dia. Era como buscar um abraço ao deitar ali, e em busca desse aconchego, eu acabava encontrando somente os meus próprios braços, abraçando a mim mesma. Revelava então nesses meus atos o quanto me sentia só, sem ao menos pronunciar uma palavra.
Nessas horas, lembro bem do rádio ao lado do sofá, corria e colocava um CD que me fazia voltar no tempo, num tempo distante e bom, seguro e quente, como o verão, ou a primavera tão florida e linda. As lágrimas costumavam correr quando eu ouvia o começo de uma canção que marcou muito esta época: 'Hoje eu acordei, me sentindo só, me sentindo pó, igual a Jó (...) Por favor, tenha paciência, o caminho é estreiro e eu tô na contramão.'
Quando eu não estava no sofá azulado, eu estava no caminho da cozinha para a área de serviço, encostada numa parede gelada, com o rosto totalmente grudado nela, como se fosse um travesseiro que escuta nossas revoltas, tristezas e alegrias.
Não queria ser vista nesse estado constante de tristeza e agonia, então quando a Alê ou o papai me viam suspirando tristezas, eu chegava a negar que me sentia tão só. Pra que negar? Pra que esconder? Pensei que camuflando meus sentimentos, deixaria todos imunes a maiores dores, agora acho que foi um pensamento errôneo. E ainda mais, que essas pequenas camufladas, hoje me tornam mais 'intransparente' do que eu gostaria de ser. Vejo que nem sempre estou desabafando como gostaria, e aí me vem a idéia de solidão de anos passados, dos meus 13 anos em um sofá azulado, ou agarrada numa parede gelada... e nas duas situações, procurando um abrigo seguro e que eu não fosse magoar, falando tudo que sentia. Ainda preciso e procuro isso, entende? Alguém que me veja como sou, com defeitos e qualidades, sabendo ouvir o que eu realmente preciso dizer, sem me julgar, sem dar um palpite sequer... Só preciso de alguém pra me ouvir, me abraçar, e deixar com que eu chore o tanto que eu conseguir. Preciso de um abraço que não seja o meu próprio, sabe?
Quero deixar de ser como era aos meus 13 anos, quero apenas que o sorriso permaneça, mas que o sofá, ou qualquer outro lugar desapareça das minhas memórias. Talvez, o meu querer seja mais porque eu realmente sinto falta daquilo, daquelas tristezas que eu saberia que passariam, que eu tinha fé que seriam rápidas e eu nem sentiria a fisgada calorosa no coração dilacerado. Agora, tudo demora tanto... não é tão rápido, tão lindo e nem tão rejuvenescedor, como antes era... Tudo mudou.
A solidão pode ter me feito mais forte, mais dura, mas ainda sim, me fez mais humana, mais capaz (de suportar)e até mesmo, mais coração.

1 comentários:

Raquel Fagundes disse...

Você tem um coração de leão... Todas essas dores, todo esse aperto no peito te fez ser o que é. Mais forte, mais viva.

amo você

tudo muda, menos o amor que a gente guarda no peito e o amor de Deus por nós.

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